Dolce Vita
:: 11 de outubro, 2007 ::
setembro de 2007

E eu dormi falando a mim mesma das almas que se calam
Tatuando-se, uma a outra, num céu de abstinentes
Com cores vivas, mortas e ressuscitadas
E desenhos abstratos.

E eu me redimi calando frente aos corpos que se falam
Sorrindo, um ao outro, em céus da boca quentes
De saliva, delícias e exageros
Gosto e textura exatos.

Acorda e vem ver.






agosto de 2007

No caminho

na imensa bolsa vermelha:

-travesseiros de barulhinho, daqueles de penas bem fofas, pra recostar as vontades
-três cachorros, dois gatos, uma pele de leão e várias almas de cavalo
-um alívio feito de grunhidos que não couberam na garganta
-duas passagens só de ida
-uma inteireza só de volta

*

como dói deixar de escrever aqui. prometo que parei. parei de não escrever, digo. mesmo que escreva besteira. mesmo que escreva pouco. mesmo.

vermelho

é dos teus olhos que nasceram vários vestígios de sonhos
que se incorporaram nos meus e sonhamos pedaços iguais
- fragmentos gêmeos -
mesmas cores, mesmos cheiros, mesmas letras que tropeçaram
nas escadas e rolaram e me caíram no colo e com elas
eu fiz rima e formei palavras e completei as palavras-cruzadas
por sob a minha pele
com a tinta de polvo dos teus abraços que me tingiam
de azul-escuro, azul-noite, azul-tudo
azul-teus olhos
que se fecharam
e deixaram uma
só uma
palavra incompleta.

*

espaços

Num espaço de 3 nuvens e 4 letras é que tive você
Na minha alma e te levei por dias e outros dias
E te esquecia depois, na ausência-chumbo dos meus
Sonhos-relinchos que não te acordaram
Nunca.

Num espaço de 10 chuvas e nenhum ditongo é que você me tirou
Da tua pele e me empurrou pra essa noite e nenhuma outra
Sorte se descortinou além das adagas-prata dos teus
Olhos-fantasmas que sempre se afirmam
Sempre.

*

*

*

Tem dias em que o céu se rasga em cinza.

E a gente se pergunta:

Do(as) cinza(s) se faz sol?






julho de 2007

mas como procurar o que eu já tenho? procurar onde, fingir que não existe? guardo na gaveta, bato cara, conto até trinta e saio em busca? faço esconde-esconde de criança, a coisa tá ali na minha frente, eu esbarro e não acho? assim eu sempre vou perder. assim não vale. eu não sou mais café-com-leite como eu era.

por que inventar o que já existe? clones não dão certo, dolly morreu cedo, a dor de ser o imperfeito do perfeito mata rápido.

eu não sei pra onde ir, me sinto Petra novamente, eu que jurei nunca mais voltar aqui.

God help me out here.


euvocê


Do sol que nasce em seus olhos, ou pelo menos nascia,
Ficou a sombra na ilharga, nos palácios, nos rochedos.
Da sua tez tão brilhante, da sua pele macia,
Tenho um pouco do seu flanco que afastava meus medos.

É bonito de lembrar de como era pequeno
O meu tudo frente ao seu, o meu mundo em suas mãos.
Fazia inferno do céu, fazia mel do veneno
Que filtrava em meus beijos, em meu colo, nos meus vãos.

Nada sei, ou saberei, das coisas dentro de mim.
Eu sei tudo, sempre soube, das cores que vêm de você.
Sua alma é de marfim.
A minha alma é de crochê.






junho de 2007


porque se você engole o monstro da vontade e fala pra ele "shhh" fica quietinho aí, logo a mamãe já vem, esperando que ele durma e entre em coma e logo morra de fome, você se engana. se engana loucamente.

é um tipo de loucura você tentar esconder de si mesmo um monstro que é só seu. e sim, sabemos que loucos somos todos, mas este tipo de loucura é mais louco porque só machuca a você mesmo - olha lá, o monstro se alimentando do resto da sua alma. aquela que você nem sabia que tinha.

ele se alimenta e a cada mordida você se lembra de um pedaço do sonho que você teve semana passada, ou sente o cheiro que te lembrou do que quer, ou ouve uma música que te leva praquele lugar onde o monstro não morava, onde o monstro não conhecia. quando o monstro nem vivia.

e ele engorda e tem filhos dentro da sua alma, e quando você percebe quem está se escondendo dentro do monstro é você.

acorda.






maio de 2007

Telhados cor de ferrugem com clarabóias escancaradas deixam entrar borboletas cobertas de pó de pólen que estranham tudo, dos móveis descascados até o cheiro almiscarado que permeia cada fresta.
E cada fresta é uma entranha a mais e cada escancaro é um casulo a menos.
*
Uma lembrança do que foi uma petúnia.
Uma saudade de um flanco que aquecia.
Uma vontade do abraço desistido.
*
Imediatamente antes, entre a manhã e o soluço, prosseguia a paisagem.

*
*
*


Me levaste não por uma palavra leve. Deste-me um mote, e assim fui. Mas emaranhei-me nas rimas e na métrica de forma que não mais saí dali, e as palavras se concretaram e depois se concretizaram e eu ali no meio. Leve.

E quanto mais nua por dentro eu ficava, mais me olhavas do lado de lá do oceano, e os mares se desmanchando.

Deixei de ser - e sou mais. Leve. Intacta. Leve.







abril de 2007

Valente: Sou eu.
Dama do Telhado: Sei que é você.
Valente: Shhhh. Não fala nada.
Dama do Telhado: Como não falar? Minha vida é falar.
Valente: Por isso mesmo. Deixa a tua "vida" um pouco. Ouve. Vou te contar a história da tua Vida, com vê, com vê maiúsculo, com vê de veia, com vê de verdade. Com vê de você. Você que fala e fala e fala e tira o vê da vida e tudo fica só ida. Um dicionário sem vê, com ida, sem volta. A letra que te falta é a primeira letra do meu nome. Mesmo que eu finja que não sei. Mesmo que eu não saiba.
Dama do Telhado: Não importa.
Valente: Não importa.
Dama do Telhado: E por onde você entrou?
Valente: Pelas venezianas molhadas dos teus olhos.
Dama do Telhado: Eu sempre as fecho, à noite.
Valente: Você sempre as fecha. Em sonho, as abre. Em sonho, eu entro.
Dama do Telhado: Isso é sonho, então?
Valente: Você não distinguiria um sonho da realidade. Aliás, ninguém distingue.
Dama do Telhado: Isso é realidade, então?
Valente: Não importa.
Dama do Telhado: Não importa.






janeiro de 2007

A impressão que eu tenho, às vezes, é a de que o amor é uma pedra grande, pesada e bem quentinha que fica dentro do seu quarto, e você entra e vê, e dorme em cima, e ela te aconchega, e você é íntima dela, e você sai de perto e sorri, e sente falta, e volta, e entra e dorme em cima de novo.

A paixão é um vagão que às vezes chega cheio e às vezes nem passa. Quando passa, você entra rápido e presta bastante atenção em todos os detalhes - porque sabe que você vai descer na próxima estação.

Eu adoro quando meu vagão chega.

Mas gosto mesmo, mesmo é da minha pedra quente e grande. Mesmo que ela me roube textos inflamados e verborrágicos. Mesmo que ela me peça pra ficar quietinha. Mesmo que.

Mesmo.

Amo. Mesmo.






dezembro de 2006

da falta do ser


Sabe quando você olha uma palavra, ou diz o nome, até ela perder completamente o sentido? Eu fazia muito isso quando era pequena. Pegava uma palavra, por exemplo, "pente". E ficava olhando P-E-N-T-E. P-E-N-T-E. P-E-N-T-E. E ficava repetindo "pente", "pente", "pente", "pentepentepentepente". Chega uma hora em que a palavra fica estranha. Ela perde o sentido. Parece que você está falando uma palavra desconhecida, numa língua estrangeira, parece que você está falando algo que não compreende.

Pois é. Fiz isso comigo, este mês. Me analisei tanto, olhei tanto pra mim, pras minhas neuras, pros meus medos, pras minhas dores e desejos que eu quase sumi. Perdi o sentido, completamente. Caí no buraco. Meu nome não me pertencia, meu corpo me era estranho. Fiquei num lugar entre mim e eu mesma que já não encontrava - nem o lugar, nem o "mim" e nem o "eu mesma".

Enfim. Parei de me repetir, parei de falar meu nome, parei de procurar o buraco para me achar lá dentro.

Estou saindo. Mas tenham calma.







novembro de 2006

sonho inteiro

a noite, um quadro negro.
as estrelas, palavras em giz.

do que estávamos falando mesmo? porque eu olho o teu rosto enquanto falas e teus olhos me fazem muito mais sentido do que tua boca. teus olhos que falam minha língua, mas falam também tantas outras, chinês, escandinavo, russo, braile.

não telefonas, não escreves, não perguntas. mas sabes de tudo. mas me sabes como ninguém mais. como ninguém jamais.

durmo tranquila. nas tuas noites-quadro negro-sem apagador, nunca. durmo tranquila nos teus olhos poliglotas e circunflexos. durmo tranquila. e tu também.






outubro de 2006

A tua alma ali, estendida.

Por sobre as folhas do livro, em cima da mesa feito toalha, enrolada no teu pescoço. A tua alma palpável. Pulsante.

Na tua boca vermelha, o sangue da tua alma. Na tua risada inadequada, o peso da tua alma. Quando você escreve "chorei", sem ter vertido uma lágrima, a letra é a da tua alma.

É tudo o que tens, agora.
A tua alma, cuspida. A tua alma, recidiva.
A tua alma.
Redimida.

(pulsando como inflamação. tumtum. tumtum. tumtum.)


*

*

A brancura dói e cega, no começo. O cheiro do jasmim, aquele que você tanto pedia, enjoa. É estranho quando você se joga no mar e ele não te arrebenta. É estranho todos os oceanos serem o mar morto.


A Vida na palma da mão. É um rim em carne-viva, que não dói mas você sente e precisa cuidar. Você não consegue cancelar - ela morde o calcanhar, ela late, ela vem pra cima. E isso é lindo.







Acredito na força dos cavalos. Pocotó, sabe? Gosto da cor da laranja e do cheiro da baunilha. Sei que sentimentos têm força, a maior força do mundo. Não enxergo tudo o que quero, e minha miopia é metáfora disso. Amo até o fim, sempre, incondicionalmente. Acho que vou ser feliz, aos poucos. E nas touradas, sempre, sempre, sempre, torço pelo touro.
*
Feliz daquele que tem cavalos morando no peito.

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